domingo, 20 de abril de 2014

Páscoa...

Olá pai...

«Pai» estranha palavra essa que não me sai naturalmente, não flui... Enrola-se-me na garganta, passa-me pelos dentes de fininho e soa torto, soa a algo inusitado...

Acho que nunca te conheci. Ou então conheci e havia muito pouco que pudesses oferecer. Não me lembro de ti em nenhuma das minhas festas de anos... Não me lembro de um abraço, de um carinho. Lembro-me de discussões, de raivas, de ausências...

Acho que entretanto comecei a desconfiar de tudo e de todos. Afinal o 1º homem que era suposto amar-me foi o 1º homem a abandonar-me. O 1º que me falhou e que não me deu nem segurança nem apoio... Mentiria se dissesse que não me afetou, que não moldou a minha forma de viver e de confiar (ou desconfiar) do Mundo...

Aprendi no entanto que há muito maus Pais. Tu foste somente um pai ausente, um pai distante que não soube dar de si.

Creio que foste a pessoa no Mundo que mais sofreu com todas as tuas atitudes, ou falta delas. Acho que nunca soubeste amar porque nunca foste ensinado a tal... Percebi que nada havia a perdoar-te, mas sim que a maior missão que «tens» é perdoar-te a ti mesmo por nunca teres estado realmente presente. Acho que não sabias...

Nunca esquecerei, óbvio que não... Mas, não guardo rancores nem ódios... Acho que, apesar de não ter sido suficiente foste o melhor que poderias ser... E não se pode exigir a alguém que dê mais do que aquilo que pode.

Espero que encontres a tua paz, a tua luz, o teu caminho. E que consigas realmente perdoar-te a ti próprio...

domingo, 1 de dezembro de 2013

Esta noite (re) encontrei-te...

Deste-me um beijo. O teu cheiro continua o mesmo. Um pouco inebriante. Um pouco tóxico. Demasiado (ainda?) familiar.

Nos meus sonhos continuas tal e qual como eras. Distante e meigo, presente e misterioso, quente e frio... Sempre foste de uma incoerência tal que sempre me prendeste a ti, estendias a tua teia e eu ficava enredada, sem mais nem menos...

Estávamos na praia... Sentados enquanto as ondas morriam aos nossos pés. Num ciclo interminável, eterno e, no entanto, tão tranquilizador e sereno... As ondas espraiavam quase nos tocando, perpetuamente nos ameaçando envolver-nos nas suas águas frias e tumultuosas de Inverno.

Falaste de mim.

Que eu sempre fora o abrigo seguro, o Amor de uma vida, da tua vida... O porto seguro para onde voltar fosse qual fosse a tempestade enfrentada. Que era segura, acolhedora, calma e fiável. Que tinha a segurança do Amor maduro que nada exige e tudo espera. Que tinha em mim a calma de quem sabe que tudo um dia daria certo, que tudo se resolveria. Não é um Amor menor, não é menos intenso, somente um Amor mais silencioso. Não é um Amor menos extenso, é somente mais poetizado, mais sereno. Um Amor alimentado não por presenças exigidas, mas, sim, ampliado por ausências significativas.

Falaste dela.

Que ela era o frenesim de um «aqui e agora». Que era dona de uma vontade inabalável de ter o que queria, custasse o que custasse e fazendo (ou não) fossem quem fosse sofrer... Que era dona da paixão egoísta da luxúria, mas que, no entanto, emprestava a todos os dias a magia do brilho do Natal. Que era intensa como um fogo de palha: quente, brilhante e de fácil extinção. Ela tinha sido uma estrelinha que brilhava mais forte no firmamento, mas que, quando olhavas de novo já não brilhava mais.

E, no entanto perdeste-nos (perdemos-te?) as duas.

Lançaste algo à água. O passado? Os sentimentos antigos? As promessas quebradas?...

Enquanto as ondas batiam aos nossos pés, levantaste-te e, sem mais uma palavra, afastaste-te até passares a ser somente um ponto longínquo na areia.

Acordei.

Sobressaltada. Incomodada. Com o coração apertado (de novo!).Um misto de quaisquer sentimentos que já não têm definição por mais que procure em dicionários...

A manhã foi cinzenta, fria, inóspita. Estranha, triste. Oculta por brumas do passado. Pensamentos enterrados foram desenterrados pelas ondas invernosas. Sentimentos já mortos voltaram à memória só para recordarem tudo o que foi dor, desilusão, tristeza...

De repente, devagarinho, o Sol do meu presente (e futuro!!) despontou no meu céu. Afastou as nuvens cinzentas e aqueceu-me o coração. E senti-me aconchegada, protegida, confortável.

Estiquei as pétalas da minha alma com graciosidade, espanejei as últimas gotas de orvalho da noite e fui...

Fui ser finalmente feliz!


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Olhos cinzentos

No meio de toda aquela algazarra pareceu-lhe que alguém a chamava. Olhou em redor, mas não viu ninguém que a pudesse ter chamado. Ao desviar o olhar lá ouviu de novo.

Encarou quem a chamava e durante breves, muito breves, segundos nos seus olhos brilhou a confusão. Quem era ele? De repente lembrou de tudo.

Da dor das ausências dele. Do vazio da sua partida, sempre anunciada. Do Amor que só existirá no coração dela. Dos sonhos que criou e alimentou, sozinha. Lembrou de noites e noites de lágrimas, de noites em claro à espera. À espera de uma sms, de uma chamada, de um toque na campainha...

Naqueles breves segundos olhou para ele e  foi como se o visse pela primeira vez. Viu-o como ele era: uma pessoa fria, egoísta e egocêntrica que somente a usara quando precisava de atenção, carinho... Ou sexo.

Ele, quando a viu, sentiu de novo tudo o que sempre sentira por ela. O Amor, o desejo, a luxúria. Algo no centro dele resplandeceu e ele sentiu tudo de novo. Até o mesmo medo de apostar, de se deixar apaixonar, de confiar. Relembrou o dia em que se apercebeu que a tinha perdido, que ela «não estava lá mais»... Sem uma palavra mais ela desaparecera da vida dele e seguira em frente. A dor de a perder para sempre mesmo assim foi inferior ao medo de voltar a confiar. E ele... Não correu atrás.

Ficaram parados. Frente a frente no meio de toda aquela multidão que aguardava a abertura da porta de embarque. Destino dela: Paris. Destino dele: Madeira.

Ela olhou-o. Acenou-lhe de longe, engoliu em seco e pegou ao colo a criança que segurava na mão e, a qual, só agora ela a vira. Sem mais qualquer outra expressão, ela apertou a criança, virou as costas e seguiu.

Ele olhou a linda menina de cabelos encaracolados e olhos cinzentos e achou-a familiar. Demasiado familiar. No entanto sabia que nunca antes a vira. Quando ela virou costas, a criança virou-se para trás para olhar o estranho que deixara a sua mãe sem palavras e quase sem reação. Agitou os deditos gordos num adeus infantil e logo se desinteressou.

Chamaram para o vôo dele e ele dirigiu-se à porta de embarque. Passou no WC. Passou água pelo rosto, mergulhou as mãos em água fria e levantou o olhar ao espelho... E viu reflectido no espelho os mesmos olhos cinzentos que há breves momentos o fitaram do colo da sua mãe.

A surpresa da descoberta fez de repente todo o sentido. A espera dela, o amor dela, e até o desaparecimento dela...

Fechou os olhos. E seguiu em frente...

Sozinho.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

sábado, 20 de abril de 2013

Livro de reclamações

Hey!!!!!!!

Pára tudo!JÀ!!!!!  Esta não é a vida que eu encomendei. Tomem lá esta de volta. Eu quero a minha vida. Aquela que eu pedi. Aquela que eu mereço.

Onde existe um homem que, não era perfeito, mas, que me amava acima de tudo e que quer estar comigo seja lá onde for.

Onde não existem problemas monetários, nem noites em claro a tentar descobrir onde desencantar mais dinheiro... Que cada vez é mais curto para as contas que, cada vez, são mais altas.

Onde eu tenho uma casa, com jardim (e piscina), e onde existem duas crianças felizes da vida por serem meus filhos e por sermos uma família.

Onde eu ainda falo a mesma língua que a minha mãe.

Onde eu não tenha de explicar à minha filha porque é que agora, de repente, ela deixou quase de me ver porque «preciso de ganhar alguma coisita onde é possível».

Onde os meus animais de estimação não morrem. Nem apanham carraças :P

Onde os meus vizinhos não se enforcam, onde as amigas não têm cancro....

Onde apesar de existirem sempre coisas menos boas, todos os dias deito a cabeça na almofada feliz, a sentir-me amada, acompanhada e feliz...

terça-feira, 26 de março de 2013

Try again!

E o vento acariciou-me a cara... Abanou os meus cabelos e envolveu-me no seu hálito quente.

Deixei me ir, embalada por recordações, e por dias mais felizes, embebida nas minhas próprias lágrimas de auto comiseração, de auto consolo...

O vento veio, abraçou-me e disse, baixinho junto ao meu ouvido:

«Um dia... Um dia tudo fará sentido...»